Que fique na memória
Eu o via passar todos os dias. Aquele jovem
rapaz, me olhava sempre de uma forma carismática, um sorriso misterioso e
despertava curiosidade.
Certo dia resolvi ir além. Quando o vi
passar corri ao seu encontro e tentei conhecê-lo melhor.
-Olá! Desculpe-me incomodar, mas qual é
o seu nome?
-Rafael...
-Mora aqui por perto?
-Óia, umas trêis quadra pá cima daqui
moça. Mais por que cê tá mi perguntano essas coisa?
Tenho que confessar: assustei-me quando
ouvi aquele lindo rapaz falando. Mas eu percebia que tinha muita coisa
escondida atrás daquele olhar, e eu estava disposta a descobrir.
-Ah! Na verdade eu só queria mesmo
fazer uma nova amizade.
-Bom taméim. Mas óia moça, eu to
atrasado agora, amanhã eu passo mai cedo pá nóis pode conversá melhor. To indo
viu.
Mal nos despedimos e ele foi embora,
correndo.
No dia seguinte ele fez como havia me
dito, passou mais cedo e ficamos conversando por horas. Nesse tempo descobri
muita coisa sobre sua vida. Ele tinha 17 anos, seus pais haviam falecido em um
acidente de carro quando o menino ainda era criança. Desde então, ele mora com
sua tia, que exige muito dele e nunca o deixou ir para a escola.
Com o tempo nossa amizade crescia cada
vez mais, então eu decidi que iria realizar um de seus maiores sonhos: ler e
escrever.
Foi a melhor experiência que eu já
tive, poder fazer por ele o que ninguém jamais fez por mim. A cada dia eu o
notava mais feliz e realizado, mas também me sentia cada vez mais apaixonada.
No último dia de nossas “aulas”,
resolvi que iria confessar-lhe todo aquele amor que eu sentia.
-Rafa! Preciso te confessar uma coisa.
-Diz.
-É maluco sabe, mas eu estou loucamente
e extremamente apaixonada por você.
Nesse momento, eu vi seus olhos se
encherem de lágrimas. Ele se aproximou e disse olhando em meus olhos:
-Eu sempre quis ouvir isso de você
algum dia. Você acabou de realizar mais um dos meus sonhos. Eu amo você, Mary.
Rafael segurou firmemente em minha
cintura, e foi onde aconteceu: o nosso primeiro beijo e o início de um namoro que
eu esperava ser infinito.
Dois meses depois, aconteceu algo que
mudou completamente minha vida. Durante um jantar em família eu tive um
desmaio. Meu pai me levou ao hospital depressa. Fiquei uma semana internada em
observação e passei por vários exames. Descobrimos que eu tinha leucemia e já
estava em um período avançado. Provavelmente eu teria duas ou três semanas de
vida.
Quando saí do hospital, hesitei em dar a notícia a Rafael. Então aproveitei
todos os dias que passei com ele, e quando eu sabia que estava quase no fim de
toda aquela dor lhe contei. Ele chorou por horas junto a mim e eu também não
me controlei – levando em consideração a minha conformação com a morte. O que
nos salvava do enorme silêncio que surgiu entre nós, foram os diversos “eu te
amo” repetidos consecutivamente em meio aos soluços e lágrimas.
Bom, hoje dia 24 de setembro de 2000 estou internada e ao que tudo indica esse
é o meu último dia. Meu melhor amigo e maior amor está aqui ao meu lado, e foi
ele quem me motivou a escrever essa história. Agora tenho que despedir de
todos, pois a qualquer instante tudo pode acabar.
Mayara Policiano