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terça-feira, 19 de novembro de 2013

 Que fique na memória


 Eu o via passar todos os dias. Aquele jovem rapaz, me olhava sempre de uma forma carismática, um sorriso misterioso e despertava curiosidade.
  Certo dia resolvi ir além. Quando o vi passar corri ao seu encontro e tentei conhecê-lo melhor.
  -Olá! Desculpe-me incomodar, mas qual é o seu nome?
  -Rafael...
  -Mora aqui por perto?
  -Óia, umas trêis quadra pá cima daqui moça. Mais por que cê tá mi perguntano essas coisa?
  Tenho que confessar: assustei-me quando ouvi aquele lindo rapaz falando. Mas eu percebia que tinha muita coisa escondida atrás daquele olhar, e eu estava disposta a descobrir.
  -Ah! Na verdade eu só queria mesmo fazer uma nova amizade.
  -Bom taméim. Mas óia moça, eu to atrasado agora, amanhã eu passo mai cedo pá nóis pode conversá melhor. To indo viu.
  Mal nos despedimos e ele foi embora, correndo.
  No dia seguinte ele fez como havia me dito, passou mais cedo e ficamos conversando por horas. Nesse tempo descobri muita coisa sobre sua vida. Ele tinha 17 anos, seus pais haviam falecido em um acidente de carro quando o menino ainda era criança. Desde então, ele mora com sua tia, que exige muito dele e nunca o deixou ir para a escola.
  Com o tempo nossa amizade crescia cada vez mais, então eu decidi que iria realizar um de seus maiores sonhos: ler e escrever.
  Foi a melhor experiência que eu já tive, poder fazer por ele o que ninguém jamais fez por mim. A cada dia eu o notava mais feliz e realizado, mas também me sentia cada vez mais apaixonada.
  No último dia de nossas “aulas”, resolvi que iria confessar-lhe todo aquele amor que eu sentia.
  -Rafa! Preciso te confessar uma coisa.
  -Diz.
  -É maluco sabe, mas eu estou loucamente e extremamente apaixonada por você.
  Nesse momento, eu vi seus olhos se encherem de lágrimas. Ele se aproximou e disse olhando em meus olhos:
  -Eu sempre quis ouvir isso de você algum dia. Você acabou de realizar mais um dos meus sonhos. Eu amo você, Mary.
  Rafael segurou firmemente em minha cintura, e foi onde aconteceu: o nosso primeiro beijo e o início de um namoro que eu esperava ser infinito.
  Dois meses depois, aconteceu algo que mudou completamente minha vida. Durante um jantar em família eu tive um desmaio. Meu pai me levou ao hospital depressa. Fiquei uma semana internada em observação e passei por vários exames. Descobrimos que eu tinha leucemia e já estava em um período avançado. Provavelmente eu teria duas ou três semanas de vida.
Quando saí do hospital, hesitei em dar a notícia a Rafael. Então aproveitei todos os dias que passei com ele, e quando eu sabia que estava quase no fim de toda aquela dor lhe contei. Ele chorou por horas junto a mim e eu também não me controlei – levando em consideração a minha conformação com a morte. O que nos salvava do enorme silêncio que surgiu entre nós, foram os diversos “eu te amo” repetidos consecutivamente em meio aos soluços e lágrimas.
Bom, hoje dia 24 de setembro de 2000 estou internada e ao que tudo indica esse é o meu último dia. Meu melhor amigo e maior amor está aqui ao meu lado, e foi ele quem me motivou a escrever essa história. Agora tenho que despedir de todos, pois a qualquer instante tudo pode acabar.

Mayara Policiano

2 comentários:

  1. Amei seu texto!!!!! Muito triste, mas emocionante!!! Linda só corrige nossas "aulas", faltou um s. Parabéns!!!!

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